terça-feira, 8 de novembro de 2011

ENSINO DE PRODUÇÃO TEXTUAL: QUESTÕES TEÓRICAS E
DIDÁTICAS
Rodrigo Acosta Pereira1
Resumo Pesquisas contemporâneas em Lingüística Aplicada têm enfatizado o papel dos gêneros
do discurso no ensino/aprendizagem de línguas, buscando compreender a relação entre
linguagem, discurso e sociedade. Tem-se não apenas apresentado aspectos teórico-metodológicos
de análise de gêneros como subsidio para elaboração e desenvolvimentos de atividades de escrita,
como também considerado escrita enquanto prática social de letramento. Sob essa perspectiva, o
trabalho objetiva (a) apresentar e explicar sobre as diferentes vertentes de ensino/aprendizagem
de produção de escrita ao longo da história da disciplina de língua portuguesa na escola; (b)
discutir a perspectiva de escrita enquanto prática social sob a perspectiva de gêneros; (c)
apresentar e explanar sobre os gêneros do discurso sob a ótica sociodialógica da linguagem e (d)
sugerir questões e considerações finais.
Palavras-chaves: Ensino de Produção Textual – Gêneros - Letramento
Abstract Contemporary researches in Applied Linguistics has been emphazised the role of
discourse genres in the language teaching and learning, looking for comprehending the
relationship among language, discourse and society. It has been presented not just theoretical and
methodological aspects concerning genre analysis as a support to elaborate and develop writing
activities, but also it has been considered the writing process as a literacy social practice. Upon
this perspective, the work aims to (a) present and discuss the diferent teaching approaches of
writing along with the history of portuguese discipline at school; (b) discuss the perspective of
writing process as a social constructed practice through genres; (c) present and discuss about the
discourse genres based on the sociaodialogical perspective of language and (d) suggest questions
and final considerations.
Key-words: Teaching of Writing Process – Genres - Literacy
Introdução
(Inter)Relacionamo-nos por meio da linguagem em diferentes contextos situacionais e
culturais, construindo relações interpessoais, (re)construindo nossa identidade social e (re)criando
representações da realidade. Na sociedade, a linguagem ocupa papel central, em não apenas
1 Acadêmico do Mestrado em Lingüística Aplicada da UFSC. Bolsista CNPq.
mediar nossas interações como também (re)construir nosso sistema social, histórico e cultural; é
por meio da linguagem que nossas práticas sociais são regularizadas, reproduzidas e legitimadas.
Sob essa perspectiva, discutir sobre o ensino/aprendizagem de produção de texto, é buscar
compreender como a sociedade e a linguagem estabelecem relação de mútua constituição e como
essa relação de interdependência é fundamental para a compreensão e desenvolvimento de
práticas de ensino e de aprendizagem da escrita em diferentes espaços sociais de letramento. É
procurar compreender a escrita enquanto ação social.
Diferentes pesquisas em Lingüística Aplicada têm se preocupado com o
ensino/aprendizagem da escrita no espaço escolar (Bazerman et al., 2005; 2006; Kleiman, 2006;
Motta-Roth; 2006 Signorini, 2006; Jurado e Rojo, 2006). Dentre essas perspectivas teóricometodológicas,
o centro das questões é a inclusão de práticas que envolvam a adoção de gêneros
do discurso na elaboração e desenvolvimento de atividades na sala de aula. Portanto, sob essa
perspectiva teórica, objetiva-se ao longo do trabalho (a) apresentar questões teóricometodológicas
das diferentes vertentes pedagógicas de ensino/aprendizagem de produção de
texto; (b) explanar sobre a vertente pedagógica sob a perspectiva dos gêneros do discurso; (c)
discutir a importância da interação aluno-professor para a compreensão e desenvolvimento da
escrita em espaço escolar e (d) propor discussões sobre o assunto.
Teorias Pedagógicas de Ensino/Aprendizagem de Produção Textual
O (re)conhecimento de práticas didáticas de produção textual tem se direcionado ao longo
da história da disciplina de língua portuguesa a diferentes caminhos conceituais e metodológicos:
(a) a abordagem da escrita como processo retórico-gramatical, cuja preocupação está centrada na
estrutura e na correção do léxico e da gramática; (b) a abordagem da escrita como processo
textual, cujo objetivo central se direciona à compreensão de mecanismos de coerência e coesão
textuais, buscando atentar para o funcionamento da micro e macroestruturas do texto acerca da
textualização; (c) a abordagem da escrita como processo cognitivo, cuja explicação da produção
do texto resulta de mecanismos psico e neurolingüísticos ativados pelo sujeito-escritor na
situação de produção e (d) a abordagem da escrita como prática social, a qual se procura relacionar a linguagem a suas diferentes manifestações psicossociais. Dentre esses processos
metodológicos, as definições de texto e linguagem, tornam-se elementos conjugados à prática
dessas vertentes pedagógicas.

Continuando a conversa

Conforme esse modelo, a produção de um texto resulta da observação de algumas condições que, segundo Bronckart (2003), formam uma base de orientação constituída por dois grandes componentes:

A
A definição de parâmetros acerca
da situação de comunicação:
B
A definição do conteúdo temático:
  • a partir das representações do mundo físico - o lugar e o momento da produção, o emissor e o receptor;
  • do mundo sócio-subjetivo – a instituição social na qual se dá a interação, o papel social representado pelo enunciador e pelo destinatário e o objetivo da interação.
  • conjunto de conhecimentos dos mundos físico e social estocados e organizados na memória do produtor de texto.

Em outras palavras, para o aluno conseguir produzir um texto, deve, primeiramente, definir a situação de comunicação em que esse texto estará inserido para depois definir seu conteúdo temático, vinculado a um gênero textual próprio. Para tanto, é preciso haver um planejamento que estará atrelado à escolha da organização sequencial e dos mecanismos locais de textualização (coesão, conexão e modalização). Todo o planejamento deve estar em função do gênero que representará a interação social no momento da produção escrita.

Conforme o Currículo de Língua Portuguesa, o ensino de língua materna centrado no texto requer que o professor desenvolva habilidades dos alunos que ultrapassem uma visão reducionista dos fenômenos linguísticos e literários.

Mas o que vem a ser isso? Como desenvolvo habilidades e competências escritoras em meus alunos? Como contribuir para uma efetiva prática de produção textual de forma contextualizada, como prática social?


Para começo de conversa

Como já é de praxe, iniciaremos nossa conversa com um convite à reflexão sobre o tema que será desenvolvido.

Antes de tudo é preciso, para o ensino de produção textual, adotar uma concepção de ensino. Afirmamos que compactuamos com a concepção de ensino enfocada por Antunes (2003, p. 42):

[...] interacionista, funcional e discursiva da língua, da qual deriva o princípio geral de que a língua só se atualiza a serviço da comunicação intersubjetiva, em situações de atuação social e através de práticas discursivas, materializadas em textos orais e escritos.

Ao tratarmos de questões teóricas para ensino/aprendizagem da produção escrita, verificamos a contribuição do que tem sido chamado de interacionismo sociodiscursivo que reúne duas perspectivas teóricas. A primeira é a definição da natureza enunciativa da linguagem, nos termos bakhtinianos (esse tema será tratado no Módulo 13); e a segunda é a explicação, nos termos vygotskianos, da natureza psicológica da relação entre linguagem e pensamento (Dolz e Schneuwly, 2004).

Produção Textual – fatores de textualidade: coesão e coerência textuais

Para desenvolver esse tema, levaremos em consideração os seguintes critérios:
1 - a tipologia (diversidade de gêneros textuais e de tipos de textos )
2 - condições de produção (objetivo para a produção de texto, destinatário, circulação, veículo ou suporte textual).
3 - a construção da textualidade pelo aluno (elaboração temática, proposta de planejamento, de revisão e de reelaboração de textos) enfocando , ainda fatores da textualidade como coesão e coerência.

Sugestões de temas para outros projetos

PARA VENDER, TROCAR E ANUNCIAR- classificados na sala de aula.
PERGUNTA QUE EU RESPONDO - usar a entrevista em sala de aula.
JINGLES - quem disse que não dá.
IM)PROVÉRBIOS E DITOS POPULARES - uma lição a mais na sala de aula.
ESTÃO TODOS CONVIDADOS - confecção de convites.
REPORTAGEM NA SALA DE AULA - uma grande matéria.
NOTÍCIAS EM SALA DE AULA - uma manchete.
LEIO, PENSO;logo opino - artigo de opinião.
Sugestão baseada no SARESP

A proposta de redação do SARESP prioriza explicitamente dois aspectos:

Sobre o que escrever (tema);
Que gênero e/ou tipo de texto escrever.


Mas, além desses, outros aspectos também são importantes:

Como escolher palavras, compor frases, criar imagens que evoquem o que se quer comunicar (coesão e coerência)?
Como registrar o texto por escrito, considerando as determinações da proposta e o contexto de produção?


Há, portanto, uma interligação obrigatória entre a estrutura profunda do texto (tema e gênero) e a sua estrutura de superfície (coesão, coerência e registro propriamente dito). Assim, o atendimento às determinações da proposta de redação (tema, situação, gênero e/ou tipo de texto etc.) constitui-se em fator básico para se avaliar a produção escolar de um texto.

Para o Ensino Fundamental, os critérios de correção da prova do SARESP pretendem investigar se o aluno é capaz de:
1 - Compreender e desenvolver o tema proposto de acordo com o contexto de produção solicitação.
2 - elaborar um texto de acordo com a estrutura-padrão do gênero/ ou tipo de texto solicitado.
3- organizar o texto de forma lógica e produtiva, demonstrando conhecimentos dos mecanismos linguísticos e textuais necessários para a construção da narrativa ou dissertativa.
4 - utilizar os conhecimentos linguísticos da norma padrão para o texto escrito.
Finalizando

Como vimos, os gêneros se caracterizam pelos temas que podem veicular, por sua composição e marcas linguísticas específicas. Assim, não é qualquer gênero que serve para se dizer qualquer coisa, em qualquer situação comunicativa.

Se alguém pretender discutir uma questão polêmica, como a descriminalização das drogas ou a pena de morte, precisará organizar o seu discurso em um gênero como artigo de opinião, por exemplo. É o gênero que pressupõe a argumentação a favor ou contra questões controversas, mediante a apresentação de argumentos que possam sustentar a posição que se defende e refutar aquelas que forem contrárias àquilo que se defende.

Por outro lado, se a finalidade for relatar um fato ocorrido no dia anterior, certamente a notícia deverá ser o gênero escolhido. Se o que se pretende é orientar alguém na realização de determinada tarefa, pode-se escrever um manual ou relacionar instruções, por exemplo. Se a intenção for apresentar algum ensinamento por meio de situações exemplares, colocando animais como protagonistas para representar determinadas características humanas, então a fábula é o gênero mais apropriado.

Portanto, saber selecionar o gênero para organizar um discurso implica conhecer suas características, para avaliar a sua adequação aos objetivos a que se propõe e ao lugar de circulação, ao contexto de produção.

Dessa forma, a proficiência do aluno em Língua Portuguesa depende também do conhecimento que ele tem sobre os gêneros e de sua adequação às diferentes situações comunicativas. Suas características, portanto, devem ser objeto de ensino e tema das atividades que se quer organizar, para que o aluno desenvolva senso crítico e para adequar seu discurso e texto às várias situações de comunicação nas quais está ou estará inserido.
Um exemplo do Caderno do Aluno

No Caderno do Aluno (8º ano, vol. 1, pp. 5-6), há a proposta para o aluno fazer um diálogo. Antes da atividade, o aluno estuda a estrutura de um diálogo.

— Olha aqui, Marcelo, eu quero uma explicação para isso!!

— Mas, meu amor, essas coisas acontecem! Você chega no escritório, cumprimenta as pessoas e aí, às vezes, alguém esbarra batom na sua camisa...

— Marcelo, olha bem para mim... Eu não vou repetir, então ouve o que eu digo e dá uma resposta muito rápida e muito boa para eu não te dar um safanão aqui e agora!

— Fala, minha amada...

— Pare de me chamar de minha amada e me explica, pelo amor de Deus, como é que uma mancha de batom veio aparecer DO LADO DE DENTRO DO SEU COLARINHO, Marcelo Oliveira!!!!!!
(Caderno do Aluno, 7ª série, vol. 1, p. 4)

Proposta de exercício I – Caderno do Aluno

Depois de explorar o exemplo de diálogo, é apresentada a proposta de produção escrita.

1. Agora, é a sua vez de produzir um diálogo, organizado de forma prescritiva/injuntiva, com base no texto a seguir. Para começar, leia-o.

Uma cliente liga para uma pizzaria para fazer um pedido. Ela vai fazer um pedido grande, para oito pessoas. São três pizzas de sabores variados, refrigerantes e sobremesas. Ela explica tudo com detalhes para que não haja confusão. Ela pede ainda uma nota fiscal de compra (pois eles estão trabalhando até mais tarde e a empresa pagará pela refeição) e troco, pois só tem quatro notas de R$ 50,00.

Antes de fazer o diálogo, o aluno responde a um questionário que o induz a descobrir os aspectos importantes na produção do diálogo proposto. Vejamos na próxima tela.

Proposta de exercício II – Caderno do Aluno

2. Com o objetivo de organizar o seu diálogo, leve em conta as seguintes questões:
a. Qual será a saudação inicial de cada uma das personagens?
b. Qual é o pedido e de que sabores serão as pizzas?
c. Quantos serão os refrigerantes para oito pessoas?
d. Qual será o pedido de sobremesas variadas para oito pessoas?
e. Como será o pedido de nota fiscal para que a cliente seja reembolsada por sua empresa?
f. Qual o valor total informado pelo atendente?
g. Como será o pedido de troco, já que as notas são todas de alto valor?
h. Quais serão as saudações finais?


Você pode pensar em outras perguntas. Essas são apenas sugestões para ajudar a organizar o seu diálogo.

Caderno do Aluno - 7ª série
(8°ano), vol. 1.

Além das questões, o aluno é solicitado a fazer uma pesquisa individual.

1. Você sabe quanto custa uma pizza nos sabores que escolheu? E os refrigerantes? E as sobremesas? Ligue para uma pizzaria e informe-se sobre os preços desses produtos para que, no diálogo que irá se desenvolver, você proponha valores coerentes com a realidade.


Anote os dados no caderno. Se achar necessário, peça outras informações.

2. A partir do esquema construído na atividade 2 da seção “Produção escrita” redija, no caderno, o diálogo entre a cliente e o atendente. Seu texto deverá ter, no mínimo, 12 linhas, incluindo as saudações iniciais e finais.

PROJETOS E GÊNEROS

Como mencionado anteriormente, o desenvolvimento de projetos é estratégia para uma aprendizagem significativa.

Ainda utilizando a 7ª série (8º ano), mas agora o Caderno do Professor, vol. 4, vamos analisar como podemos desenvolver um projeto em que a produção de texto envolva a observação dos gêneros.

Observe a Situação de Aprendizagem 1 (p. 12), “Evento comemorativo na escola”

A meta dessa atividade é criar uma campanha para divulgar uma data comemorativa, o Dia da Consciência Negra.

O objetivo desta atividade é o de desenvolver uma nova situação ligada ao discurso publicitário, bem como atrelá-lo a uma questão escolar bastante importante: a organização de comemorações de datas relevantes com o envolvimento dos estudantes. (p. 13)

Caderno do professor - 7ª série
(8°ano), vol. 4.

Para a organização do evento, serão produzidos vários textos, orais e escritos, como entrevistas, relatórios e peças publicitárias.

sábado, 29 de outubro de 2011

Exemplo - Situação de aprendizagem – Caderno do aluno

Veja que, no Caderno do Aluno, vol. 1, 7ª série (8º ano), na Situação de Aprendizagem 1 (p. 3), o aluno observa o gênero receita.


O exercício solicita que o aluno observe no texto características do conteúdo temático, da forma composicional e do estilo.


A pergunta "a) Que nome se dá a esse gênero textual e em que situação ele costuma ser usado?" é o questionamento que levará o aluno a refletir sobre o conteúdo temático, sobre em qual situação de comunicação o texto pode ser usado.


Na pergunta "b) Em quantas partes ele é dividido? Qual a função ou finalidade de cada uma das partes?", o aluno refletirá sobre a forma composicional e o estilo.

Caderno do Aluno – 7ª série (8º ano) – volume 1
Caderno do Aluno, 7ª série
8°ano), volume 1.