domingo, 2 de outubro de 2011

Modulo cont. COesão Textual Na charge

Vale ressaltar dois tipos de coesão relevantes ao estudo da charge: a endofórica e a exofórica. Acredita-se que esse gênero não se apóie apenas no primeiro tipo e utilize ainda o segundo.
Na coesão exofórica, a remissão exige um referente extratextual, não recuperável na superfície explícita do texto e, sim, no contexto-situacional por meio de inferências. Segundo Koch (1990, p. 20), na coesão exofórica, o referente está fora do texto, enquanto na coesão endofórica o referente
se acha expresso no próprio texto. Neste último caso, se o referente precede o item coesivo, tem-se a anáfora; se vem após, a catáfora. A autora apresenta um diagrama abaixo em que esses
conceitos são organizados didaticamente:
REFERÊNCIA - Situacional Coesão exóforica - textual coesão endofórica- Anáfora( ao que precede ) - Catafora - (ao que se segue)
ANÁLISE
Cabe verificar a presença dos mecanismos coesivos no gênero, visando observar a contribuição desse fenômeno para o humor e para a crítica. Para isso, serão analisadas charges retiradas
dos quatro principais jornais do Rio de Janeiro, no dia 01/03/2006: O Globo, O Dia, Jornal do Brasil e Extra. Precede-se ao exame um breve comentário explicativo sobre o contexto social, que visa ambientar o momento vivido durante a produção das charges.
Contexto social das charges do dia 01/03/2006
Fim do carnaval e início das preparações para as novas eleições presidenciais. Além disso, o tema da corrupção do mensalão ainda está em voga. Caruso, O Globo





O emprego do dêitico1 “agora” remete ao momento de enunciação da charge, o que é bastante comum nesse gênero, cuja principal característica é o traço circunstancial. Essa partícula
temporal é posta em equivalência a um nome “cinzas”, que exige todo um conhecimento de mundo, no âmbito conotativo. Além disso, trata-se de um nome ambíguo, já que remete a dois campos semânticos: o carnaval, referindo-se à quarta-feira de cinzas, portanto fim do carnaval, e à política, correspondendo ao fim da carreira política dos personagens. No primeiro plano do texto, está a caricatura do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu acusado de ser o responsável pelo mensalão.

cont;. Coesão textual - 2

Relações textuais Proccdimentos Recursos
Reiteração Repetição Parafrase;paralelismo e repetição propriamente dita
Substituição Gramatical: Lexical e Elipse

Associação: Seleção lexical Palavras semânticamente próiximas.

Conexão: Estabelecimento Uso de diferentes conectores.
das relações sintá-
tico-semântico en-
tre termos, orações,
períodos,parágrafos,
e blocos suprapara-
gráficos.

Koch (2006: 186) afirma firmemente que os conceitos de coerência e coesão textuais não se confundem mais, e uma prova disso é a possibilidade da ausência desta nos textos. Embora em
sua mais nova obra, Ler e compreender, não haja um capítulo sobre coesão, a autora apresenta três capítulos intitulados Referenciação e progressão referencial, Funções das expressões nominais referenciais e Seqüenciação textual (ibidem, p. 127). Neles, a coesão é abordada em perspectivas macrotextuais, diferentemente da maneira que normalmente se vê.

cont;. Coesão textual

REFERENCIAL Substituição pro-formas nominais
pro- formas verbais
pro- formas adverbiais
pro- formas numerais


RECORRENCIAL Recorrência de termos; Paralelismo; Paráfrase; Recursos fonológicossegmentais
e supra-segmentais.

SEQUENCIAL temporal Ordenação linear; Espressões ordenadoras ou continuadoras
Partículas temporais; Correlação dos tempos verbais.
Por conexão Operadores do tipo lógico.
Operadores do discurso.
Pausa.

Antunes (2005, p. 50) acredita que a coesão não é apenas uma questão de superfície. Os termos se ligam em seqüência exatamente porque se relacionam conceitualmente. A continuidade
que se instaura pela coesão é, fundamentalmente, uma continuidade semântica. A autora propõe, então, uma classificação baseada nos critérios de relação, procedimentos e recursos, conforme
segue abaixo (ibidem, p. 51):

MODULO: LEITURA

A COESÃO TEXTUAL E A CHARGE
Verônica Palmira Salme de Aragão (UFF; UFRJ)
As piadas veiculam seu discurso indiretamente, até porque, em certos casos, fazê-lo abertamente
criaria problemas graves para quem ousasse produzir determinados discursos.
(Sírio Possenti, 1998)
O objetivo deste estudo é analisar os diversos recursos que ocorrem no âmbito da coesão textual nas charges. Esse processo de co-referenciação nesse gênero exerce, além do papel de relacionar
um signo a um referente extratextual, o de ligar diferentes campos semânticos. Pretende-se verificar como os processos de co-referenciação podem contribuir para esse intrigante gênero
que critica ferozmente os acontecimentos políticos diários, apoiados no humor.
De acordo com Ducrot e Todorov (2001, p. 229), “as línguas naturais têm com efeito o poder de construir o universo ao qual elas se referem; podem pois obter um UNIVERSO DE
DISCURSO imaginário”. Nas charges, esse universo se amplia, visto que muitas vezes os signos verbal e não-verbal se complementam e contribuem conjuntamente para a construção do sentido. A análise do corpus parte da observação dos diferentes recursos de coesão nas charges dos quatro principais jornais do Rio de Janeiro: O Globo, Jornal do Brasil, O Dia e Extra. Todas colhidas no mês de março de 2006.
Os estudos gramaticais da tradição, mesmo com ênfase nos aspectos formais da língua e com a tentativa de fugir dos percalços provocados pelo sentido, contribuíram de alguma forma para
os estudos do texto. Somente com a crítica a essa gramática excessivamente normativa foi possível verificar a necessidade de considerar o texto nos estudos lingüísticos para que as regras não tenham o fim em si mesmas. Lendo ou escrevendo, o falante precisa dominar a(s) língua(s) a fim de que possa utilizar as estratégias discursivas exigidas nas situações reais. Pode-se afirmar, então, que é preciso valorizar os acertos verificados nesses estudos e reformular o que for necessário.
Com o avanço da Lingüística Textual, propicio propiciou-se um maior entendimento da língua a partir da elaboração de conceitos voltados para a apreensão de significados no texto e mesmo no
discurso. Nesse sentido, a Análise Semiolingüística do Discurso, teoria proposta por Charaudeau, apóia-se na materialidade do texto para, só a partir dela, alcançar o sentido. O autor define o
processo de construção do sentido como semiotização do mundo segundo o qual um sujeito real, o comunicante, com uma determinada finalidade, dirige- se a um sujeito real, o interpretante.
Na perspectiva da linguagem, esses sujeitos recebem a designação de enunciador e destinatário respectivamente. Enquanto o primeiro realiza o trabalho de transformar um mundo a significar
em mundo significado (sentido-forma), o segundo tenta captar esse mundo significado de acordo com suas competências comunicacional, discursiva e situacional. Charaudeau (2005, p.12) afirma que “a linguagem é multidimensional”, já que tanto nos processos de produção quanto de recepção são exigidos conhecimentos, lingüísticos, discursivos e situacionais.
A COESÃO TEXTUAL
Não há um consenso entre os autores quanto a uma definição para a coesão. Segundo Beaugrande e Dressler apud Val (2000 p. 38), a coesão diz respeito ao aspecto formal do texto,
sendo responsável pelas relações formais estabelecidas em sua superfície. Halliday e Hasan apud Fávero (1995, p. 13) acrescentam que um texto se caracteriza por sua relação semântica de coesão. Entendem, portanto, que a coesão é responsável pelas relações presentes em um texto. Com isso, enfatizam o papel da coesão sobre a coerência textual. No Brasil, também há diferentes pontos de vista sobre esses estudos. Fávero (1995) questiona algumas propostas de classificação
de coesão e fundamenta-se numa que considera a função dos termos coesivos. Procede-se a um quadro apresentado por Fávero (1995, p. 58) em que são apresentados os fatores de coesão: